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Metodologia

O Que é OSINT e Como Usar Dados Públicos para Due Diligence

OSINT (Open Source Intelligence) é a prática de coletar informações a partir de fontes públicas. Saiba como aplicar essa metodologia para verificar empresas e sócios antes de fechar negócio.

5 de maio de 2026 · 18 min de leitura

Em fevereiro de 2024, uma empresa de engenharia foi descredenciada por um banco de desenvolvimento regional após auditoria de compliance. O motivo: um dos sócios havia participado de 11 empresas nos últimos 8 anos, 9 delas encerradas por inatividade antes de completar dois anos. Esse dado estava disponível gratuitamente na base da Receita Federal. O banco só o verificou depois do credenciamento.

OSINT, sigla de Open Source Intelligence, é a prática de coletar e cruzar informações disponíveis publicamente para produzir um retrato confiável de um alvo. O termo veio da inteligência militar, mas a metodologia se aplica perfeitamente a due diligence empresarial. No Brasil, o volume de dados públicos é excepcionalmente alto: Receita Federal, PGFN, CGU, TSE, CNJ e Diários Oficiais. A maior parte das empresas usa apenas uma dessas fontes.

O que dados públicos respondem sem custo

A combinação das fontes abertas disponíveis no Brasil responde às perguntas mais relevantes em due diligence de fornecedores e parceiros comerciais:

  • A empresa existe, está ativa e opera no CNAE que declara?
  • O sócio tem histórico de empresas problemáticas ou padrão de abertura-fechamento acelerado?
  • Há sanção federal registrada no CEIS, CNEP ou lista de inidôneos?
  • O sócio é ou foi candidato a cargo político, critério de PEP?
  • Há dívida inscrita na PGFN, especialmente FGTS ou previdenciária?
  • A empresa ou seus sócios aparecem em decisões judiciais relevantes?

Para uma análise de nível básico a intermediário, fontes públicas cobrirão entre 70 e 85% das informações necessárias. O restante depende de registros restritos (cartórios, birôs de crédito, investigação in loco) ou de APIs especializadas com custo. Mas esse percentual gratuito é exatamente onde a maioria dos red flags aparece.

Por que OSINT falha na prática

A maioria dos erros de due diligence não ocorre por falta de dados. Ocorre por metodologia incompleta ou desatualizada. Estes são os quatro padrões de falha mais comuns:

Verificar apenas o CNPJ e ignorar os sócios

A empresa pode estar ativa e sem sanções, mas seus sócios acumulam histórico problemático em outras empresas. A due diligence começa no CNPJ e termina no CPF de cada sócio.

Usar relatório de 2019 para contrato de 2026

Situação cadastral, composição societária e passivo fiscal mudam. Um laudo com mais de seis meses de idade não reflete a realidade atual. Due diligence é snapshot, não histórico permanente.

Parar na situação cadastral sem cruzar outras fontes

CNPJ ativo não significa empresa idônea. Empresas na lista do CEIS continuam com CNPJ ativo na RF. A situação cadastral é apenas a primeira linha de verificação.

Confundir homônimos sem verificar CPF e data de nascimento

João da Silva é um nome comum. Atribuir sanções ou processos ao sócio errado por coincidência de nome contamina a análise e pode gerar responsabilidade legal por informação falsa.

As principais fontes públicas para due diligence no Brasil

Receita Federal (CNPJ)

Dados disponíveis

  • ·Situação cadastral
  • ·Sócios e qualificações
  • ·CNAE e porte
  • ·Capital social
  • ·Endereço e contato

Acesso

Gratuito via API pública

Uso principal

Base de qualquer due diligence empresarial no Brasil

Portal da Transparência

Dados disponíveis

  • ·CEIS: Cadastro de Empresas Inidôneas e Suspensas
  • ·CNEP: Cadastro Nacional de Empresas Punidas
  • ·Servidores públicos federais

Acesso

CSV mensal, download gratuito

Uso principal

Identificar sanções federais e conflitos de interesse

TSE (Tribunal Superior Eleitoral)

Dados disponíveis

  • ·Candidaturas por CPF
  • ·Doações recebidas em campanha
  • ·Filiação partidária

Acesso

dados.tse.jus.br, download gratuito

Uso principal

Avaliar exposição política de sócios (PEP: Politically Exposed Person)

CNJ DataJud

Dados disponíveis

  • ·Processos judiciais por nome ou CPF/CNPJ
  • ·Tribunal, vara e assunto
  • ·Status e data de ajuizamento

Acesso

API gratuita com cadastro

Uso principal

Detectar litígios, execuções fiscais e processos criminais

Diário Oficial

Dados disponíveis

  • ·Contratos públicos
  • ·Nomeações e exonerações
  • ·Penalidades administrativas

Acesso

Querido Diário (API OK Brasil), gratuito

Uso principal

Rastrear menções em atos do governo federal, estadual e municipal

PGFN (Certidão Negativa de Débitos)

Dados disponíveis

  • ·Inscrições em dívida ativa federal
  • ·Valor consolidado e tipo da dívida
  • ·FGTS, previdência e tributos federais

Acesso

dados.pgfn.fazenda.gov.br — mais de 4 milhões de inscrições ativas, download gratuito

Uso principal

Verificar passivo fiscal relevante antes de contratar ou credenciar

CADESP (Secretaria da Fazenda de SP)

Dados disponíveis

  • ·Registro estadual de ICMS
  • ·Situação ativa ou baixada para São Paulo
  • ·CNAE estadual e enquadramento tributário

Acesso

Portal Sintegra SP, gratuito por CNPJ

Uso principal

Validar atuação comercial de empresas paulistas que declaram operar com mercadorias

Querido Diário (OKBrasil)

Dados disponíveis

  • ·Busca por palavra-chave em Diários Oficiais
  • ·Federal, estaduais e municipais
  • ·Histórico desde 2010 para vários entes

Acesso

queridodiario.org — API REST gratuita, sem autenticação

Uso principal

Encontrar menções de empresa ou sócio em penalidades, contratos e atos administrativos

Sinais que justificam investigação aprofundada

Estes padrões, quando identificados, não encerram o processo de due diligence: abrem uma camada adicional de verificação. Nenhum é eliminatório por si só, mas todos exigem resposta documentada antes de prosseguir com a contratação.

!

Capital social inferior a R$ 5 mil para contrato acima de R$ 100 mil

Descasamento entre capacidade declarada e obrigação assumida

!

Endereço de coworking com 50 ou mais CNPJs cadastrados

Pode indicar empresa de fachada sem estrutura operacional real

!

Sócio com mais de 3 empresas encerradas nos últimos 5 anos

Padrão de abertura-fechamento acelerado merece investigação do motivo

!

CNAE declarado não corresponde ao serviço ou produto contratado

Pode indicar irregularidade fiscal ou fraude na proposta

!

Empresa com menos de 12 meses de existência para contrato de longa duração

Capacidade financeira e operacional ainda não demonstrada

!

Sócio ou empresa no CEIS ou CNEP (mesmo sanção antiga)

Sanções expiradas ainda são relevantes para avaliação de histórico

!

Alteração societária recente antes da proposta (menos de 90 dias)

Troca de sócios próxima ao contrato pode ser estratégica para ocultar histórico

!

Inscrição ativa na PGFN com valor acima de R$ 50 mil

Passivo fiscal relevante compromete capacidade de entrega e continuidade

!

Sócio com candidatura ou filiação política ativa (critério PEP)

Exige due diligence aprofundada conforme COAF Resolução 30 e normas Bacen/CVM

!

Processo trabalhista acima de 10 reclamantes no DataJud

Indica problema sistemático de gestão de pessoal ou informalidade

OSINT e LGPD: o que é permitido

A LGPD (Lei 13.709/2018) não proíbe o uso de dados públicos para due diligence. O art. 7º lista as bases legais para tratamento de dados pessoais sem consentimento, e duas são diretamente aplicáveis:

  • Inciso V: execução de contrato ou procedimentos preliminares ao contrato. A verificação de um fornecedor antes de assinar é um procedimento pré-contratual legítimo.
  • Inciso IX: legítimo interesse do controlador. A proteção contra fraude, corrupção e inadimplência configura interesse legítimo desde que os dados coletados sejam proporcionais à finalidade.

O art. 7º, §4º, é ainda mais direto: dados tornados manifestamente públicos pelo titular dispensam consentimento. Informações cadastrais da Receita Federal, candidaturas no TSE e participações societárias foram tornadas públicas por determinação legal. Não há violação de privacidade em consultá-las.

Obrigações regulatórias que tornam due diligence compulsória

COAF Res. 30Obriga due diligence de PEP e PLD-FT para instituições financeiras e DNFBPs (contadores, advogados, imobiliárias, joalherias). Inclui verificação de TSE e fontes públicas.
Bacen Circular 3.978Exige procedimentos KYC (Know Your Customer) para abertura de conta e relação comercial com pessoa jurídica, incluindo identificação de beneficiários finais.
CVM Resolução 50Gestores e intermediários do mercado de capitais devem realizar due diligence de clientes e contrapartes, com ênfase em PEPs e sanções internacionais.
Susep Circular 612Seguradoras e corretoras de seguros obrigadas a PLD-FT com verificação de sócios e PEPs em operações relevantes.

O processo de investigação em 7 etapas

1

Coleta de dados de entrada

Reúna todo dado disponível sobre o alvo: razão social completa, CNPJ, nome dos sócios, CPF quando disponível, e-mail, telefone e endereço. Cada dado é uma chave de busca nas fontes que vêm a seguir. Quanto mais dados de entrada, menor a margem de erro por homonímia.

2

Verificação cadastral na Receita Federal

Confirme situação cadastral, CNAE principal, capital social declarado, sócios com qualificações e endereço registrado. Compare com o que a empresa apresentou na proposta: qualquer divergência é o primeiro sinal de alerta e deve ser documentada antes de prosseguir.

3

Histórico societário dos sócios

Para cada sócio, levante o histórico completo de participações: quantas empresas abertas, em quais anos, qual a proporção de encerradas sobre o total. Um sócio com 10 empresas abertas tem histórico diferente de um com 10 empresas abertas e 9 encerradas. A velocidade e o padrão importam tanto quanto os números brutos.

4

Sanções federais: CEIS e CNEP

Consulte o Portal da Transparência com o CNPJ e o CPF de cada sócio. O CEIS lista empresas suspensas ou inidôneas para contratar com o governo. O CNEP lista punições por improbidade, corrupção e fraude. Sanções expiradas ainda são relevantes para avaliar histórico de comportamento.

5

Verificação política no TSE

Busque cada sócio no cadastro do TSE por CPF. Candidaturas, filiações e doações recebidas determinam se o sócio é uma Pessoa Politicamente Exposta (PEP). Esse status exige procedimentos específicos em contratos com instituições financeiras, seguradoras e empresas reguladas pelo Banco Central ou CVM.

6

Dívida ativa federal na PGFN

Acesse dados.pgfn.fazenda.gov.br para verificar inscrições em dívida ativa federal pelo CNPJ. Avalie o valor consolidado, o tipo de dívida (FGTS, previdência, tributos) e a data de inscrição. Dívidas previdenciárias e de FGTS são sintomas diretos de problemas com folha de pagamento.

7

Processos judiciais no DataJud

Consulte a API do CNJ com o CNPJ e o CPF dos sócios. Filtre por assuntos relevantes: execução fiscal, ação trabalhista, recuperação judicial, falência, improbidade. Um único processo de falência requerida ou dezenas de reclamações trabalhistas são sinais que mudam a decisão de contratação.

Limitações reais e quando ir além

Fontes abertas têm limites explícitos e vale conhecê-los. O CPF de sócios na Receita Federal é mascarado por padrão (art. 198 do CTN). Processos em segredo de justiça não aparecem no DataJud. Dívidas bancárias e protestos em cartórios exigem consulta direta ou acesso a birôs de crédito. Bens imóveis requerem pesquisa individualizada nos cartórios de registro: alguns estados como São Paulo (ARISP) têm portal online por CPF, mas a maioria ainda exige consulta presencial.

Para contratos acima de R$ 1 milhão, admissão de executivos em posições sensíveis ou due diligence de M&A, OSINT de fontes abertas deve ser complementado com birôs de crédito, relatórios de inteligência corporativa e, quando aplicável, investigação presencial. O OSINT é a camada zero: obrigatória, gratuita e que a maioria das empresas brasileiras ainda ignora.

Perfis de risco por tipo de relação comercial

O escopo da due diligence deve ser proporcional ao risco. Aplicar o mesmo nível de investigação a um fornecedor de material de escritório e a um parceiro de joint-venture é ineficiente. Use os perfis abaixo como referência de calibragem:

Fornecedor de materiais

Básico
  • ·Situação cadastral e CNAE na RF
  • ·PGFN: passivo fiscal e FGTS
  • ·CEIS: suspensões para contratos públicos

Prestador de serviços PJ

Intermediário
  • ·Histórico societário dos sócios
  • ·Capital social versus escopo do contrato
  • ·DataJud: reclamações trabalhistas

Franqueado ou master franqueado

Avançado
  • ·Rede societária completa (sócios e co-empresas)
  • ·Histórico de abertura-fechamento
  • ·CNEP e Diário Oficial

Parceiro de M&A ou investimento

Completo
  • ·Todas as camadas anteriores
  • ·Birô de crédito e cartórios
  • ·Relatório formal com hash de integridade

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Para volumes acima de 50 CNPJs por mês ou relatórios com assinatura e hash de integridade, entre em contato com o time comercial.

contato@mindata.com.br
O MINDATA automatiza as etapas 1 a 3 desse processo para qualquer CNPJ brasileiro: dados da Receita Federal, PGFN, CEIS/CNEP, TSE e histórico societário completo em menos de 3 segundos, sem cadastro. A página de busca é a entrada. O grafo de rede é a saída visual. O perfil do sócio é a Camada 3 com histórico completo de participações.

Perguntas frequentes

OSINT é legal para verificar pessoas físicas?+
Sim, para fins legítimos como due diligence contratual. O art. 7º da LGPD lista como bases legais o interesse legítimo do controlador (inciso IX) e a execução de contrato (inciso V). Dados tornados públicos pelo próprio titular — como candidaturas no TSE ou participações societárias na RF — não exigem consentimento para tratamento, conforme art. 7º, §4º. O limite está no uso proporcional: a coleta deve ser restrita ao necessário para a finalidade declarada.
Como verificar CPF mascarado na Receita Federal?+
O CPF dos sócios é parcialmente mascarado na API pública da RF (ex: ***123456**). Para cruzamento entre fontes, use o nome completo associado ao CNPJ e à data de nascimento quando disponível. Para situações que exigem CPF completo — como consulta ao DataJud ou PGFN — é necessário que o próprio titular forneça o dado ou que a empresa tenha base legal específica para a coleta direta (contrato assinado, por exemplo).
Quanto tempo leva uma due diligence completa?+
Depende do escopo. Para um fornecedor de baixo risco, a verificação básica de CNPJ mais sócios mais CEIS leva menos de 10 minutos com ferramenta adequada. Para due diligence de M&A ou admissão de executivo sênior, o processo inclui consultas a cartórios, birôs de crédito, investigação in loco e entrevistas, podendo levar de 5 a 30 dias úteis. O OSINT de fontes abertas é sempre a primeira etapa — a mais rápida e a que identifica a maioria dos red flags.
O que é PEP e por que verificar no TSE?+
PEP (Pessoa Politicamente Exposta) é qualquer pessoa que exerce ou exerceu cargo político relevante: presidente, senador, deputado, governador, prefeito de capital, ministro, além de cônjuges e familiares de primeiro grau. O COAF Resolução 30 e as normas do Banco Central (Circular 3.461) exigem que instituições financeiras e DNFBPs (como contadores e advogados) realizem due diligence aprofundada em contratos com PEPs. O cadastro do TSE é a fonte primária gratuita para verificação de exposição política.
A LGPD proíbe usar dados da Receita Federal para due diligence?+
Não. A LGPD não veda o uso de dados públicos para fins legítimos. O art. 7º, §4º, é explícito: dados tornados manifestamente públicos pelo titular dispensam consentimento para tratamento. As informações cadastrais disponíveis na Receita Federal foram tornadas públicas por determinação legal e regulatória. O que a LGPD exige é que o tratamento seja proporcional, tenha finalidade específica e seja documentado — três condições plenamente atendíveis em um processo de due diligence estruturado.
Como documentar a due diligence para auditoria?+
Registre a data de cada consulta, a fonte utilizada, o resultado obtido e o responsável pela análise. Para cada red flag identificado, documente a decisão tomada e a justificativa. Capturas de tela com timestamp são suficientes para nível básico. Para contratos de alto valor, some relatório formal com hash dos arquivos consultados (garantia de integridade). Essa documentação protege a empresa em caso de questionamento posterior por auditores, reguladores ou o próprio parceiro.
Qual a diferença entre CEIS e CNEP?+
O CEIS (Cadastro de Empresas Inidôneas e Suspensas) lista empresas impedidas de contratar com o poder público por sanções administrativas, como declaração de inidoneidade e suspensão temporária. O CNEP (Cadastro Nacional de Empresas Punidas) lista pessoas jurídicas punidas com base na Lei Anticorrupção (Lei 12.846/2013), incluindo acordos de leniência. Ambos são mantidos pela CGU e consultáveis gratuitamente no Portal da Transparência. Para due diligence completa, consulte os dois.
O que fazer quando encontro um red flag?+
Documente o achado e escale para o responsável pela decisão de contratação antes de prosseguir. Red flags não são necessariamente eliminatórios, mas exigem aprofundamento: contato direto com a empresa para explicação, consulta a fontes adicionais ou parecer jurídico. A regra prática é proporcional ao risco: um endereço de coworking pode ser explicado; um CNEP ativo exige resposta formal documentada. Nunca ignore um red flag sem registro explícito de quem tomou a decisão e com qual justificativa.
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